Poesia

Literatura Marginal


Era uma vez, no meio da multidão
Uma senhora que veio em minha direção
Me perguntando a razão pela qual
A nossa literatura é dita Marginal...

É Marginal porque nem sempre é tudo nosso
Porque do seu ofício só nos restou os ossos
Se não fosse difícil não estaria com o Hip Hop
É a luta do favelado, do fudido, do pobre

É Marginal porque Somos nosso ponto de vista
Criamos livros, sites, saraus, jornais e revistas
Lapidamos a palavra para encontrar a revolução
Somos o quinto elemento, a conscientização

Somos marginais porque não temos seus valores
As coisas simples da vida é que são nossos amores
Altos gritos declamados recitam palavrão
Com os ideais na cabeça e uma caneta na mão

É Marginal porque mostra o que você esconde
A vida pulsando por debaixo dos escombros
Enfim, é Marginal porque é Literarrua
Periférica e Nossa!

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Dexter - Ativista Alado



Anoiteceu...
Assalto armado.
Apanhado, acabou apunhalado, arrastado, algemado.
Alguns afirmaram: aprisionado até apodrecer.
Agonia, abatimento, aflição. Apatia, angústia, apreensão.
Abandono, atraso, atrito. Amargura, abismo.
Ante as adversidades, acreditou.
Animou, aspirou avançar, almejou.
Aprendeu, aprendeu, aprendeu.
Alternativa às armas, amadureceu a arte.
Aprimorou a alta aptidão. Agregou asas, auréola. Ascen-deu.
Autodeterminado, aproveitou amigos, alianças, aliados.
Agora? Afamado ativista. Anti-reacionário, alternativa à aristocracia.
Avesso à arrogância, adversário à alienação.
Adepto à atitude, apresentando apologia ao amor.
Antídoto ao arbitrarismo, ameaça às atrocidades.
Ataque a autoridades, atentado ao apartheid.
Aprovado, admirado, aplaudido, aclamado.
Amanheceu...


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A Morte do Seu Zé


Morreu Seu Zé
mendigo e maltrapilho
era a alegria da garotada
ensinava pipa pra gurizada
e levava chute na madrugada


Seu Zé andava bêbado e fedido
mas, digno, jamais deixou de sorrir
tratou todos muitíssimo bem
Não deixava de saudar alto ninguém
Dividia o conhecimento e pedia algum vintém

Seu Zé morreu, coitado, jogado
excluído confundido com o muro
vira-lata que uivava o passado
se tivesse nascido poodle de madame
teria sido melhor tratado.


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A Grande Alma


Ghandi, grande gigante
Ensinou o homem a guerrear
Com humildade e amor
Fez um império se curvar

Nasceu e morreu sem luxo
Franzino, simples e calvo
Armado pelas palavras
Fez da injustiça seu alvo

A religiosa e separada Índia
Unida pela independência
Pacíficos contra a opressão
Através da desobediência


Enquanto porcos de gravata
Acordam um novo genocídio
Tiros jamais matam sonhos
Seus ideais permanecerão vivos.

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Recomeçando o Dia



Agradecendo o dia que se foi
Deitarei no jardim quando cansar
Correrei atrás do cachorro e acrescento
Nessa noite não fico em casa

Sem porquê pra quem passava
Receberei em dobro o sorriso mostrado
Que escorreu ao brincar com meu filho
Hoje à tarde enxugarei a lágrima

Às inevitáveis encruzilhadas da vida
Tratarei com amor o ar que me faz aspirar
Os seres da natureza à minha volta.
Hoje de manhã sentirei plenamente

As coisas simples do mundo!
Hoje nada é tão importante quanto
Ao raiar deste dia iluminado.
Lerei de novo, mas de baixo para cima


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O Homem



Pelo caminho segue o homem
a passarinhada num momento some
Refletindo sobre a vida, longe do agora
felicidade e alegria, há tempos foram embora
Restou um desalento amargo, a dor e o rancor
verdadeiras armaduras por onde não passa o amor

A poeira da estrada relembra o homem
buscando imagens que na memória dormem
A fazenda do pai, oh lugar... deixada de herança
a única satisfação do dia é buscá-la na lembrança
Os animais no pasto, os peixes, as aves
Paraíso natural onde não chegavam chaves

O vento rebate no rosto do homem
sem saber que ele enfrenta há dias a fome
"Cumo pode tirá de mim a fazenda assim
cum simples paper trazido cá pra mim!"
Na confiança depositada, o injusto virou legal
do advogado a assinatura, do analfabeto a digital.

Mira ao longe com o passado na mente
hoje solitário no meio de tanta gente
Um amontoado de tristes estórias e grandes problemas
marchando todos rumo à Paranapanema
Restos de sonhos que a opressão não arrancou
sonhando com a vida simples que na mente ficou.

Toda dor que passou na vida trazia a todo momento
o vizinho que lhe tomou a terra no empréstimo fraudulen-to
A esposa e os dois filhos que foi obrigado a abandonar
para que os avós lhe dessem o pão que ele ainda iria buscar
Tiraram de sua vida a chance de ter direitos
a ignorância e a opressão rasgaram em carne viva seu peito

Após seiscentos quilômetros, chegaram os sem-terras
numerosos jagunços no horizonte anunciavam a guerra
A feição do homem transfigurou, era quase uma risada
porque era na luta que ele se encontrava.


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De que lado você está?



Divago sobre os lados
navegando alado
percebo que temos mais lados
que diamante lapidado

Adiante o seu lado
mas não deixe ninguém de lado
Todo ser ao seu lado
tem um lado a se conhecer

Plano branco que atravesso a nado
de um lado árduo e sem seta
no planalto das palavras
mostro meu lado poeta


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A Luta do Hip Hop



Os sonhos, as idéias
o cunho esquerdista
jamais farão o hip hop
sumir de nobres listas

Reivindicação popular
contestação, força sem igual
é o imenso poder
do povo sobre o mal

É em grandes livros
que se encontra a teoria
é com grandes parceiros
que a constrói no dia-a-dia

O sistema é um gigante
mas tem pés de barro
para que ele caia
basta não financiarmos

Na luta contra o capitalismo
é que o guerreiro cresce
a cada mostra de identidade
o imperialismo enfraquece

No impecável proceder
o mundo mais justo vem
se injustiça te indigna
és compañero también

Pela potência do hip hop
mudaremos o planeta inteiro
os nossos valores triunfarão
sobre o deus Dinheiro


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O Dia em que uma Onda Azul de Recife me Beijou



Amei-te antes com os olhos
Você foi a primeira a responder
No beijo que me veio
Espumado dos teus seios

Aproximou-se depressa como um calango
Para arrancar meus desenganos
Mas esperava-te já
Enfeitiçado pelo teu canto de Yemanjá

Quebrei-me antes de ti
No teu Beijo escondido
O pescador só escutou o estampido
Pelo recife estávamos protegidos

Despedaçou-se num repente
Voltei aos bonecos pequenos
Despi-me das tuas águas cristalinas
Mas teu sal oxidou a minha língua.


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Enclausurados





Teimam em cercar de muros
As tantas belezas do mundão
Vigia, arma e ingresso na mão
Em nome da segurança, a exclusão

Passeio entre homens e casas
E sinto a frieza de cada portão
fechados no que chamam de seu
E haja cadeado pro coração

Cercam livros e faculdades
Cercam as leis da opressão
Que cada linha que escrevo
Lime as grades da nossa prisão


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Político Maldito



Vem na TV
Sem me ver
Diz que sabe ser
Que preciso de você

E pela sua boca maldita
Desaminhoca ladainhas

Vem no correio
Pedir meu apreço
Que voto não tem preço
Que mais tarde eu agradeço

E pela sua boca bocarra
Desfervilha desbravatas

Vem na internet
rindo na manchete
Dizer que pinta o sete
Mais segurança promete

E pela sua boca desgraçada
Vomitarei minha ânsia amada


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O Salário do Seu Chico


Seu Chico, ansioso, sacou o esperado salário
Vale notar que não excedia o limite diário
Já perto de casa parou no boteco do Seu Zé
Tateou em forma de notas novas o suor do operário


Seu Chico pagou a conta do bar com a metade
Guardou um refri pras crianças, seria a novidade
Nas piadas de futebol era uma alegria só
No ponteiro da parede viu que já era tarde

Chegou em casa e viu no sofá a mulher brava
Acostumado, esperou a hora que se acalmava
Deu pra ela duas onças pra conta de telefone
E jantou rápido enquanto no dia seguinte pensava


Os duzentos reais restantes guardou pro álcool
Deu Graças a Deus que a esposa é doméstica,
Caso oposto seria foda porque seu salário já foi pro saco
Da Ambev, Souza Cruz, Telefônica, Coca-Cola e Texaco


Seu Chico é um guerreiro sobrevivendo a opressão
Mais um se moendo pra garantir a boa vida do patrão
E no seu modo de sobreviver, mesmo sem querer
Seu salário financia sua própria escravidão.


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Experimagens



Verde e rosa vem em ondas
azeitona verde em oliva
finca o palito no meio
pra comer melhor a pizza

Gourmet fica à vontade
sorri com fiapos nos dentes
cofrinho se mostra quando senta
a comida quando demora chega quente

Práticas de exercício físico
molham o suor da nuca tua
calça e coxa uma só curva
e eu te fingindo nua

Cama pra que te quero
pra que as pernas se encontrem
as íris brincam de esconde-esconde
os demais sentidos que se afrontem.


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Menino-goleiro-negro



Concentra aguado
belo e artístico sois
divididos em dois
melhor seria somado

pula bola desliza no palco
a chuteira quem dá o show
drible de corpo e gol:
_Pega aí seu macaco!

nem brigou, acostumado
frangava insultos, não defendia
jogando na baixo-estima
seu futuro alí decretado.


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ProstIntuição





Puta
que pariu
e que abortou
posta na sarjeta
alugando a perneta
por luxo e necessidade
pele negra bem marcada
bunda dura e rebitada
sorriso agridoce
puta da rua
seminua
é eu



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Tem que Ser de Esquerda



Ser de esquerda é saber que estamos lutando para alcançar um mundo que muitos morreram para que cada vez che-guemos mais perto.

Ser de esquerda é ter coragem de falar enquanto não se esforçam para ouvir. É amar a poesia enquanto mercantilizam o ódio. É fazer da luta um romance, e da vida, uma biblioteca.

Ser de esquerda é amar a mãe Natureza e não o deus Dinheiro. Harmonizar o meio à sua volta sem mudar o seu posicionamento. É converter as coisas simples na fonte suprema de inspiração e razão insofismável de sempre agüentarmos um pouco mais.

Ser de esquerda é ter urgência na resolução dos proble-mas, porque o povo sofre desde sempre, e cada segundo a mais é muito tempo. A eficiência para semear é tão virtuosa quanto a paciência para colher.

Ser de esquerda é procurar nas piores correntezas, o vento que precisamos para seguir contra a maré.

É amar a música do povo, e não a música para o povo.

É respeitar todas as culturas, e saber que conhecê-las é uma das formas mais eficazes de resistir à domesticação.

Ser de esquerda é ter motivo para viver e para morrer, para sorrir e para chorar, para ficar e para partir, mesmo que as pessoas próximas, que tanto estimamos, não com-preendam no momento.

E haveremos de fazer o momento nos compreender.


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Miragem



Gostosíssima, linda, miragem desfilando
Cobiçada, pele queimada e olho azul
Rebolando simpatia e aguardando
A hora de poder coçar o cu.


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Sarau



O sarau

é um local

em que todos

competem para

ver quem é

o mais

louco



No final

os vencedores

e os perdedores

recebem o apelido

de

poetas.


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Magia do Rodeio



Cowboy playboy, artista na pista
público que vibra, aquele que organiza
Certeza que também pulará
Quando o seu saco eu também apertar.

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Ser ou não ser



De nada adianta lutar
por aquilo que não somos

Um gesto altruísta vale mais
que mil palavras revolucionárias.

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A Peteca



A moleca ganhou uma peteca
se empeteca
Não sossega
Queria uma boneca

Insegura, encontra o moleque
Triste, não ganhou sequer cueca
Teu pai tomava pileque
Com a pobreza na caneca

A moleca oferece a peteca
O moleque aceita sem fazer eca
Aceitaria até a boneca
Ganhando não se peca

O moleque chora pelo presente
A moleca pra fugir do passado
Desconhecidos mas unidos
No mundo dois sapecas.

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Shopping Center



Quem diria...
quinhentas lojas
e eu só gostaria
da sua livraria.


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O Rosto e o Tesouro




A pupila cresce, observa a humanidade

Encontraram novo planeta a tv fez reportagem
é pertinho, é logo ali vai dar pra fazer viagem
O governo americano nega que sabia antes
mas a esquerda reafirma: quantas mentiras, dominante
As grandes empresas disputam a descoberta

A sobrancelha se levanta, a boca se aperta

Primeiros analistas apontam a salvação
pro aquecimento global já se tem a solução
O planeta promete, a sonda busca detalhes
uma foto apontou níquel como possibilidade
metais preciosos, verdade ou mito

A maça se destaca,o olhar foca o infinito

Corrida espacial, quem vai ser o pioneiro
tanto metal, tanto ouro, é de quem chegar primeiro
Pesquisas aceleradas, ônibus espacial
robôs à satélite, plataforma especial
Astronautas convocados, abrir fogo dito,

A boca se entreabre, insinuando um sorriso

Todos apressados, desesperados sem calma,
procurando o tesouro não encontrado na alma.


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Sanguinário



Bloed, Blut, blood
Sangre, Sang, sanguine

Só pra te lembrar
Que egoísmo não se transmite.

Doe sangue.


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Marcas que marcam



Coca-Cola, Nike e Mc Donald
Texaco, DEM, SBT
Phillips, Levis, Monsanto
Polo, Pepsi, Globo, PSDB.

Não, obrigado
Sua marca não me USA.

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Poetizar Rima



Poetizar rima tão linda
quanto você impossível
que a minha expresse
um pouco do incrível

do brilho dos seus olhos,
cheiro do cabelo,
sorriso cativante
que graça esse seu jeito

Difícil expressar,
explicar em palavras
o que se vê, se sente
e se traduz em lágrimas

Um momento só
e a saudade já bate
num só momento
a fortaleza se abate

O coração aperta
e a saudade tortura
me tira a concentração
pra enfrentar a vida dura

Solidão angustia
na sua lembrança
uma princesa, uma rainha,
na sua pujança

Na memória os dias
de infinita felicidade
o amor existe
e se encontra nos detalhes

Na cumplicidade
nas palavras de carinho
a cada olhar
ele reconstrói seu caminho

Sua boca me convida
pra saboreá-la
olhos cerrados e almas tocadas,
corações unidos numa só toada

Sua música é perfume
pra visão do meu tato
sua imagem passa e passa
como disco riscado.



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André Ebner